Diferentemente da Opel, que falamos no post anterior, que era um braço forte da GM em mercado europeu, torna-se muito mais difícil falar de uma fabricante globalmente reconhecida, com uma marca disponível em todos os continentes e limitar um determinado período em que esta tenha atingido o seu auge - até por que a admiração por determinados modelos, plataformas, produtos e as identidades locais vêm por se tornar mais influentes e tornar a decisão ainda mais difícil.
Mas no caso da Ford, este período foi escolhido por um fator diferencial: seu sucesso nas pistas. Associado à modelos com identidades tão fortes que não morrem jamais.
Em 1963, o Ford Cortina já era um modelo reconhecido no mercado britânico (e imediações) como um sedan bastante competente nascido em 61, acessível e robusto, mesmo surgindo com motores kent de 996cil e 1340cil. Mas foi com o motor 116-E, de 1499cil que a nossa história começa a tomar forma. Walter Hayes, da Ford, foi à Colin Chapman solicitando - nada mais nada menos - que mil unidades do 116-E ampliado (para 1577cil devido ao trabalho de redimensionamento de cilindros e pistões) e duplo comando, para a homologação no Grupo 2, para montá-lo sobre o Cortina sedan 2p. Fornecido com painéis de carroceria de lâminas mais finas, suspensão totalmente retrabalhada e mais baixa, caixa de transmissão vinda diretamente do Lotus Elan, bateria passada para o porta-malas e ainda o baixo peso, causou tremor nos concorrentes maiores e mais potentes, e dominou as suas categorias. O Ford Cortina Lotus tornou-se ícone mesmo com estilo discreto - nada mais que um pequeno sedan de 2 portas baixo, pintado em branco "casca-de-ovo" com discretas faixas verdes - que assustava mais os "entendidos" nas pistas do que os leigos nas ruas.
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| Seu equilíbrio dinâmico permitia que andasse ao lado de modelos como Austin-Healey, Alfa-Romeos e outros. |
Do outro lado do Oceano, a Ford dava uma cartada das mais significantes e icônicas no mundo automobilístico. Frente à um cenário repleto de modelos pesados, desengonçados e incapazes de transformar a força bruta dos grandes V8 em potência e esportividade, ela surge em 1964 com uma novidade que fez muita gente de Detroit cogitar o suicídio. O Mustang era o cavalo que, correndo oposto ao sentido tradicional, inaugurou a categoria dos "pony-cars" e fez os americanos de classe média sonharem com estilo, sensualidade, esportividade e um bom gosto quase que sem precedentes. Leve, ágil, harmônico em seu estilo, tornou quase tudo à sua volta obsoleto e desinteressante, de tal forma, que até mesmo outros modelos da própria Ford perderam muitas vendas frente ao novo querido de Dearborn. Frente à inúmeras versões esportivas, em carrocerias sedans, coupés, conversível, é quase que dispensável buscar elogios à primeira versão deste clássico absoluto.
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| Versão de lançamento, a famosa "1964 e meio" |
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| A versão coupé surgiu um pouco depois, mas é a mais lembrada |
Le Mans talvez seja o ponto mais emblemático em toda a história da Ford. Conhecida por seu conservadorismo comercial extremamente eficiente, a fabricante se viu moralmente constrangida quando Henry Ford II foi basicamente escorraçado de Maranello por Enzo Ferrari, quando o americano negou que Enzo, após a negociação, ainda comandasse a divisão esportiva da Ferrari mesmo depois de adquirida pela Ford. Mas qual a dimensão desta afronta? 21 milhões de dólares - na década de sessenta, quando esta cifra era quase imensurável - Ford determinou que independente do custo, o "cavallino" deveria ser esmagado na pista como forma de vingança pelo ultraje. Projetado com o refinamento inglês para chassis e suspensão - que tinham como base o chassis Lola Mk6 que equipou os veículos desta em 63 - contava com a brutalidade dos propulsores americanos Ford V8 acima de 4l para mover o Ford GT 40 mais rápido que as Ferraris em qualquer circunstância. Se em 64 e 65 a vergonha de Ford aumentava por ficarem pelo caminho, em 1966 a sua redenção foi plena: Le Mans viu os três primeiros lugares sendo ocupados pelos baixos e largos Ford em uma trinca inimaginável, bem como em 67 também esteve no mais alto do pódio, utilizando nestas ocasiões o 7.0l V8. em 1968 e 69 o GT40 voltou a honrar os esforços milionários da Ford com a vitória, alcançada desta vez com os V8 de 4.9l.
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| Mítica chegada da trinca de Fords GT40 em Le Mans, 1966. |
1968 viria para assistir o nascimento de um modelo que, apesar de não ter conquistado um imenso mercado, tornou-se mito dos Rallyes. O recém lançado Escort MK1 (que já existia na versão 100E, mas que não se comparava à atual) trazia um conjunto equilibrado, de motor L4 dianteiro, tração traseira em eixo rígido, suspensão extremamente eficiente e robusta que consistia em um conjunto MacPherson na dianteira e molas em lâminas (faqueadas no modo "raiz") na parte traseira, e que praticamente não encontrou concorrentes à altura no cenário diversificado dos rallyes. A lateral com seu design "coke bottle" trazia um quê de americano ao modelo tipicamente europeu, enquanto a dianteira "dog bone", que imitava um osso em sua grade frontal tornou-se o seu maior ícone estilístico. Contou com inúmeras versões esportivas, como a 1.5l de duplo comando modificada pela Lotus, uma Cosworth RS1600, e a "México". Sua segunda geração, pós 74, conquistou ainda mais prêmios com a versão RS1800.
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| Pode pesquisar. A maioria dos Escorts ainda existentes estão em "traje esporte" |
Nesta época os britânicos imploravam por um modelo esportivo com características muscle, mas maior refinamento e um comportamento mais "adequado". Por mais que o Mustang fosse um sucesso, ele era agressivo e bruto demais para os padrões conservadores e discretos dos gentlemans ingleses. Com leve inspiração no irmão "redneck", o Ford Capri surge em 1969 como um modelo de mecânica compacta e eficiente, derivada do já consagrado Cortina. Contando com uma gama de motores "inimaginável", desde o pequeno kent L4 1.3l (acredite), o L4 2.0l do Pinto, os V4 do Taunus, o Essex e o Cologne V6 e até um Windsor V8 de 5.0l, atingia quase todos os tipos de público. Suas linhas mais discretas e menos "sensuais" recebiam detalhes estéticos agressivos nas versões esportivas e de luxo quando compatível, em um carro voltado plenamente ao mercado local, mas que atingiu vários países e vendeu quase 2 milhões de unidades em sua existência. O modelo de comportamento dinâmico elogiável, baixo peso e potência suficiente podia não se equiparar ao produto americano em potência ou arrancada, mas atingiu uma performance em curvas e trechos mais difíceis que o irmão maior e mais velho demorou muito a conquistar.
Vários destes modelos seguiram durante a década de 70 evoluindo significativamente e avançaram em novas gerações ainda mais potentes ou vitoriosas que as anteriores. Mas sem dúvida, são esta gerações destes modelos que trilharam de forma inegavelmente vitoriosa novos caminhos, fazendo com que a marca do oval azul - mais do que um exemplo de sucesso do mercado automobilístico - tornasse-se uma das marcas mais admiradas, lembradas e reconhecidas em todo o mundo. Nas pistas ou fora delas.















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